Ric Jones

Porque o silêncio é a pior das covardias…

4
Jan 2008
Ilusórias Isenções
Posted in AIDS alternative by rhjones at 11:02 am |

Eu não dou conselhos, e nunca os darei…. Apresento os fatos e a paciente que escolha“.

Esta frase surgiu de uma grande amiga durante um debate sobre humanização do nascimento, e eu achei oportuno explorar o tema da isenção profissional.

Eu achei a frase sensacional, e percebi que existe uma possibilidade de explorarmos a questão da “isenção profissional” quando tratamos de temas polêmicos. Lembrei-me imediatamente do prefácio do livro da Henci Goer (Obstetric Myths versus Research Realities – um dos mais importantes livros que li na vida) no qual ela corajosamente admite (o que apenas aumentou minha admiração por ela) possuir um “personal bias“, um especial viés para ver a realidade do atendimento às mulheres gestantes. Dizia ela acreditar na inata capacidade feminina de gestar e parir, assim como na “perfeição” do processo adaptativo dos milênios que construíram este modelo de parturição. Disse isso despudoradamente, desavergonhadamente, sem tentar se esconder atrás de uma capa de “neutralidade científica”. Ela sabia que sua crença no poder feminino de dar à luz não foi conquistada através das leituras de artigos, de periódicos ou livros. É algo inato, intradérmico, visceral. O que eu achei bonito foi ela ter admitido que, SIM, ela também tinha sua visão específica da realidade, mas que isso NÃO INVALIDAVA as pesquisas, o debate, a descoberta, a emoção e o julgamento honesto. Também não impedia que ela pudesse trocar de opinião, caso as evidências fossem forte o suficiente para derrubar o muro de suas crenças tão fortemente construídas.

Henci abriu mão de uma imparcialidade improdutiva e forçada, porque desumana.

Há alguns dias eu lia uma entrevista com a Celia Farber, famosa jornalista americana que luta pela reavaliação do modelo HIV-AIDS, em que se falava exatamente isso: a isenção dos profissionais envolvidos em uma ampla discussão social. Eu, pessoalmente, considero a isenção médica tão absurdamente impossível quanto a jornalística. Celia é evidentemente favorável a tese de que a AIDS tem uma causa multifatorial (não tem uma causa, mas “causas”), e de que não é produzida por um vírus. Assim também pensam Christine Maggiore, Kary Murris e mesmo Peter Duesberg, que é virologista. Nem mesmo eu posso me posicionar de forma eqüidistante; minha posição é clara e se pareia com a destas personalidades. A idéia de que tais propostas sejam tratadas de forma fria, asséptica e imparcial é totalmente impossível, exatamente porque cada pessoa tem suas histórias e seus valores por detrás delas. Celia deixou evidente que a adoção de um paradigma por um jornalista (mas poderia ser por um médico diante da humanização do parto) é um ato afetivo e emocional, e que é impossivel impedir a simpatia por um determinado modelo. Os fatos não são suficientes para que adotemos uma determinada posição; eles são apenas ferramentas de construção de uma realidade.

Os fatos não existem; existem apenas interpretações” dizia Nietsche. “Os fatos são fátuos” dizia Max.

Num recente debate na TV da África do Sul estavam sentados em uma mesa de debatedores David Rasnick (criador do PCR e representando a dissidência da AIDS) e um médico sul africano. David Rasnick exigiu no ar as provas de que os ARV (anti-retrovirais) aumentavam o tempo de vida de pacientes, ou que melhoravam sua qualidade de vida. O médico sul africano sentiu-se acuado (ele sabe, tanto quanto eu, que esta prova não existe), mas respondeu com os olhos abertos e a voz embargada: “Vou te dar uma prova maior do que os estudos“. Rasnick olhou assustado para os lados - a platéia - e disse “Mais importante do que a ciência?“. O médico sul africano respondeu: “Sim… minha família. Meu irmão morreu de AIDS e não havia anti-retrovirais que pudessem salvá-lo“.

David Rasnick observou um silêncio respeitoso diante da dor do debatedor, mas talvez ele tenha tido a mesma sensação que tive ao assistir o debate: o médico sul africano desconsiderava os estudos, a ciência e as evidências. Sua posição diante da AIDS era totalmente emocional, passional, vinculada à sua dor profunda, ao terror de ver um ente querido morrer sem a assistência que ele (ilusoriamente) achava ser salvadora. E a manifestação deste médico era compreensível e humana, apesar de, aos meus olhos, estar completamente equivocada. Ele achava que os fatos, as evidências eram pequenas demais para demovê-lo de suas crenças. Entre a fria e assustadora realidade, e a esperança num mito de salvação, ele optou pela segunda hipótese. E quem poderia condená-lo?

O debate da AIDS tomou ares de religião, e os defensores do modelo hegemônico funcionam como bispos de uma techno-seita, que acreditam que todos os que duvidam de seus pressupostos tornam-se infiéis e assassinos, e não se furtam de colocá-los no ostracismo ou em fogueiras midiáticas. O mesmo pode ser visto quando tratamos da humanização do nascimento. Somos “radicais” porque confrontamos os valores da ciência com os da natureza feminina, e as mesmas sansões nos são aplicadas. Somos heréticos, perigosos, detratores da modernidade e indivíduos que colocam a vida de outros em risco. Os discursos são semelhantes, assim como as posturas. O ódio e as atitudes violentas são moeda de troca comum entre os debatedores de teses tão profundas.

Tanto o médico sul-africano como o professor Rasnick tem algo em comum: ambos abraçaram apaixonadamente uma causa; ambos acreditam que ela pode salvar vidas. Ambas as crenças são pré-racionais, vinculadas ao desejo, às emoções, e só muito depois é que recebem a fina capa da racionalidade para tentar demonstrar que tal volume de emoções e sentimentos encontra um ancoradouro na razão e no saber. Mas somente muito depois de ela ter entrado em ação e incorporado sua força e sua potência no sujeito que a adota.

Quando nós pretendemos não “aconselhar”, procurando um lugar de “neutralidade”, penso que estamos incorrendo em uma grande perda de tempo.

 

Perdi completamente a ilusão de que devo ser imparcial; acredito que devo escorar minhas crenças na solidez das evidências possíveis (como muitos cientistas e jornalistas corajosos que conheço, alguns citados acima), mas isso não invalida o fato de que a origem, a fonte da qual brota minha paixão está escondida nos labirintos do inconsciente, nos estratos mais profundos do meu ser.

Ao mesmo tempo em que valorizamos esta imparcialidade (em tese) dizemos que lamentamos cesarianas que foram realizadas sem que todas as alternativas tenham sido utilizadas (no que concordo plenamente). Citamos o exemplo de um médico que “forçou a barra”, e se negou a fazer a cesariana, delegando tal função ao plantonista. Eu entendo tudo isso, e não critico tais atitudes: acho que são honestas e válidas. O que me interessa é o fato de que para fazer isso (forçar a barra, insistir com a paciente, mostrar que “falta pouco”, pedir que suporte, estimulá-la a continuar, etc.) não vamos usar a RAZÃO, mas sim a emoção. Nossa razão diz: “Olha, existem duas alternativas: esta ou aquela; cabe a você escolher”. Mas nós não faríamos isso. Usaríamos o vasto repertório das emoções e vivências pessoais para persuadir nossa paciente a fazer algo que nossos sentimentos percebem como melhor.

Pois eu parei de ter vergonha de possuir um viés. Depois que li Henci Goer admitindo isso nas primeiras linhas do seu livro percebi que eu também poderia assumir uma posição de ativista. Mesmo que eu exerça um controle ferrenho e sincero sobre as minhas convicções, exercitando um saudável falsificacionismo em todas as minhas crenças, ainda assim assumo minha fé nas mulheres, na sua capacidade de gestar e parir seus filhos com segurança e beleza; tenho certeza de que mulheres são seres brilhantes nas suas especificidades, e que não é justa ou digna a tutela que exercemos sobre elas. Acredito no poder da natureza de se adaptar às diversidades, e creio nos processos milenares que nos fizeram seres especiais. Creio que para mudar a humanidade é necessário mudar a forma como chegamos a este mundo, e acredito que temos o dever de mostrar às mulheres “a outra história do nascimento”, onde a glória de colocar um filho no mundo pelas próprias forças não é ofuscada pela necessária segurança oferecida a ambos.

Nenhuma das crenças acima é baseada em evidências. Não adianta procurá-las na biblioteca Cochrane.

Não tenho mais medo ou vergonha de aconselhar uma mulher com base nos valores que cultuo, porque sei que ela pode ter alguns semelhantes aos meus (e deve ter, por isso mesmo me procurou), e isso pode ser a diferença entre uma experiência maravilhosa de parir, ou uma tristeza que durará muitos anos.

Ric

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